Will he Stink Carried heavenward thru the
hall of music?
No chance"
(Será que ele vai feder ao ser carregado ao paraíso
através
dos salões da música? Sem chance")
Estes versos faziam parte do poema Ode To L.A.While Thinking of
Brian Jones, Deceased, escrito por Jim Morrison em novembro de 1969
em homenagem ao ex-guitarrista dos Stones, encontrado morto na
piscina de sua própria casa em julho daquele ano. Eles
poderiam muito bem se aplicar ao autor: afinal, desde que Jim
sofreu uma ataque cardíaco fatal na banheira de um
apartamento em Paris na madrugada de 3 de julho de 1971 -
exatamente dois anos após a morte de Brian Jones -, o
espirito de sua obra, especialmente à frente dos Doors, e o
culto de sua imagem continuam vivos e cada vez mais influentes no
rock contemporâneo. Fato esse que fica atestado não
só pelos álbuns dos Doors continuarem vendendo em
torno de 400 mil cópias anuais em plena década de 90
como o interesse despertado pelo material inédito
lançado postumamente. Além disso, foram dezenas de
bandas que se referenciaram em sua concepção musical
- das quais Echo & The Bunnymen seria o exemplo mais
característico -, que se sucederam à influência
exercida pelo trabalho de Jim na poética e nas performances
de Iggy Pop e Patti Smith, entre outros, nos anos 70.
Lógico que seria um equivoco menosprezar a
contribuição das outras três "portas" - o
tecladista Ray Manzarek, o baterista John Densmore e o guitarrista
Robby Krieger - na avançada concepção musical
do grupo, agressiva demais para a Califórnia em meados dos
anos 60, que testemunhava o pleno florescimento do pscicodelismo de
bandas como Jefferson Airplane e Grateful Dead e a
consolidação do country rock por intermédio
dos Byrds e do Buffalo Springfield. Boa parte dessa alquimia sonora
dos Doors deveria ser creditada aos três instrumentistas do
grupo, mas é inegável que essa força
catalisadora em estado bruto provinha das letras e dos vocais de
Jim. Enquanto porta-voz da filosofia dos Doors, ele declarava
"estar interessado em tudo que dissesse respeito à revolta,
desordem, ao caos e especialmente a atividades que não
fizessem sentido". Esse lema sintetizava a postura do grupo, em que
Jim, tal qual um xamã alucinado, conduzia o público
ao frenesi através de suas performances, gerando uma
espécie de cartase coletiva freqüentemente associada
por ele próprio à tragédia clássica
grega e ao Carnaval do Rio. O seu extraordinário carisma,
aliado a uma inteligência aguçada, e uma grande carga
de senxualidade transformaram Jim em "sonho americano" durante a
segunda metade da década de 60, e sob esse epíteto,
Jim conheceria o caminho da ascensão e da glória, que
seria seguido no tempo de sua vertiginosa queda.
A Educação Sentimental - James Douglas Morrison
nasceu em 8 de dezembro de 1943, na cidade de Melbourne, na
Florida. Seu pai, Steve Morrison, era um jovem oficial em
início de carreira na Marinha e apenas seis messes
após o nascimento de Jim foi convocado para servir nas
forças americanas em manobras pelo Pacífico, onde
só retornou em meados de 1946. Neste meio tempo, Jim viveu
na casa de seus avós paternos em Clearwater, em companhia de
sua mãe, Clara Clarke. A rígida
educação metodista a que Jim foi submetido nos
primeiros anos de infância foi acrescida com a severa
disciplina quase militar imposta pela volta do pai, o que
contribuiu para gerar em Jim um ódio intrínseco a
qualquer espécie de autoridade. Junto a isso, ele cultivava
uma espécie de isolamento em relação as outras
crianças de sua idade, em parte por sua timidez, em parte
pelas constantes mudanças às quais sua família
era submetida, de acordo com as bases para as quais o seu pai fosse
destacado.
Depois de passar pela cidade de Washington e pelo Novo
México, em 1957, os Morrison fixam-se na Alameda, ao norte
da Califórnia. A essa altura o família já
contava com mais um casal de crianças - Andrew e Ann -, mas
foi o filho primogênito quem mais se aproveitou desse
período para ampliar seus limites de liberdade, que
já se tornara considerável devido as constantes
ausências do pai. Foi nessa época que Jim conheceu Fud
Ford, um colega gorducho com quem aprontava traquinagens, como ir
até a casa de praia de uma colega para observar ela e sua
mãe trocando de roupas tomar as garrafas de gim do Sr.
Morrison e substituir o conteúdo por água, sem contar
as intermináveis tardes que passava na casa de Fud Ford
dando trotes telefônicos e escrevendo textos
radiofônicos como "as dificuldades do enrrabamento e da
masturbação". Foi ai que Jim também descobriu
o livro On The Road, de Jack Kerouac, grande influência sobre
ele, que adotou uma atitude beatnik de vida e mergulhou em obras de
escritores como Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg, Gregory
Corso e outros.
Em fins de 1958, a família de Jim mudou-se novamente, desta
vez para o estado da Virginia, na Costa Leste, pois seu pai voltara
a trabalhar no Pentágono. Durante os três anos
seguintes, Jim moraria na cidade de Alexandria, onde conheceu Tandy
Martin, sua primeira namorada, com quem viveu num tempestuoso
interlúdio, tanto pela crueldade das brincadeiras de Jim
quanto pela imprevisibilidade de suas atitudes, chegando certa vez
a ameaçar fazer uma cicatriz no rosto dela com uma faca para
que ninguém mais a olhasse, exceto ele.
Porém paralelamente a esse comportamento intempestivo, Jim
demonstrava-se brilhante no colégio, destacando-se com
excelentes notas, ao mesmo tempo que começou a
freqüentar a Biblioteca do Congresso e a devorar dezenas de
livros. Entre as suas predileções estavam a filosofia
grega antiga, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche,
poetas americanos como Walt Whitman e Dylan Thomas e a vertente
maldita da prosa e poesia francesas, descendente direta das obras
de Charles Baudelaire, representada pelos livros de Guillaume
Apollinaire, Paul Valéry, Verlaine e, principalmente, Jean
Arthur Rimbaud, com quem Jim mais se identificou os seus primeiros
escritos. Nesta época ele pensava em tornar-se escritor e
poeta e começou a colaborar com pequenos ensaios para um
jornal diário, alem de ocasionalmente também se
dedicar à pintura. Outra forma de expressão que
começou a despertar paixão em Jim foi o Blues
combinado com as técnicas vocais dos dois cantores que mais
admirava: Elvis Presley e Frank Sinatra.
Com varias atividades, o interesse de Jim pelos estudos decaiu
completamente e, quando ele anunciou sua decisão de
abandonar o colégio antes de terminar o curso, seu pai
repreendeu furiosamente e decidiu o mandar de volta para a
Flórida, para que concluísse lá seus estudos.
E, em setembro de 1961, Jim voltou a morar com seus avós
paternos em Clearwater, enquanto o resto da família Morrison
se mudou para San Diego, na Califórnia. É claro que
os velhos agüentaram por pouco tempo as insolências, a
aparência e os hábitos pouco convencionais de seu
neto, e logo Jim decidiu morar em uma casa com mais cinco colegas.
Foi quando começou a estudar a fundo Sociologia,
História e Literatura, além de ter se dedicado
também ao teatro. Foi em Clearwater que conheceu
também Mary Frances, uma recatada garota católica
conquistada pelo estilo diferente da vida de Jim, e que tomou o
lugar de Tande em suas afeições. Seu temperamento
irascível então já era regado por doses
generosas de álcool, o que fez com que seus colegas de
moradia o fossem abandonando um a um, até só restar
ele, quando então passou a viver em um pequeno trailer. Um
dos poucos amigos que tinha nessa época era Bryan Gates, com
quem - a exemplo dos personagens dos escritores beat - fez
inúmeras vagens de carona pelo Texas, Arizona e até
pelo México. Em uma dessas viagens, Jim teve um destino
certo: a casa de seus pais em San Diego.
Steave e Clara assustaram-se menos com os cabelos compridos e a
aparência desleixada de beatnik de seu rebento do que com o
fato de ele anunciar ter a intenção de estudar cinema
na UCLA, a universidade de Los Angeles. Não era exatamente o
futuro que tinham planejado para Jim, mas, dada a sua
insistência, aquiseram, e, em janeiro de 1964, Jim conseguiu
sua transferência para o departamento de cinema da UCLA. O
corpo docente na época contava com nomes como os dos
cineastas Josef Von Stamberg, Stanley Kramer e Jean Renoir, e entre
os nomes figurava o nome do jovem Francis Ford Coppola (que
posteriormente realizaria o clássico Apocalypse Now, com a
anatológia seqüência de abertura ao som de "The
End" dos Doors), mas no restrito grupo de amigos de Jim a principio
destacavam-se Dennis Jakob (que mais tarde seria assistente de
Coppola em Apocalypse Now) e John LaBella. O trio, além de
cinema, tinha interesses em comum em literatura e música.
Foi com Dennis que Jim teve a idéia de formar um duo musical
com chamado The Doors: Are Open and Closed". O nome se referia aos
versos de William Blake - "There are things are known and things
that are unknown; in between are doors" (Existem coisas conhecidas
e coisas desconhecidas; entre elas há portas) e "If the
doors of perception were cleansed, everything would appear to man
as it truly is, infinite" ( Se as portas da percepção
fossem purificadas, tudo aparecia ao homem como é na
verdade, infinito) -, que por sua vez inspiraram o nome do livro As
Portas da Percepção, no qual Adous Huxley aborda suas
experiências com mescalina. Mas o interesse de Jim pela
poesia não havia sido abandonado, e durante a sua temporada
na UCLA rabiscava versos e anotações sobre cinema,
que depois integrariam seu primeiro livro de poemas, The Lords: Not
On Vision, ao mesmo tempo em que preparava uma curta metragem em
preto-e-branco e em 16mm para seus exames finais, que se tornaria
seu primeiro e único filme. Para isso ele contava com a
colaboração de John LaBella como cameraman, e foi
através dele que Jim veio a conhecer Ray Manzarek.
Este é o começo... - Uma tagetória igualmente
sinuosa, porém bem diversa de Jim, era a que tinha levado
Raymond Daniel Manzarek a estudar cinema em Los Angeles. Nascido em
Chicago em 12 de fevereiro de 1935, ele teve uma
educação clássica no piano desde
criança, mas só começou a se interessar
realmente pelo instrumento aos doze anos, quando por conta
própria aprendeu a tocar boogie-woogie. Isso o levou durante
a adolescência a se apaixonar pelos blues que fervilhavam nos
guetos e clubes noturnos da cidade, mas teve que deixar a
música de lado para se dedicar ao curso de Economia.
Já formado, ele veio para a UCLA para estudar Direito, mas
logo desistiu, e depois de trabalhar seis messes com
bancário, voltou para a Universidade com o objetivo de
estudar cinema. Mas, em dezembro de 1961, abalado por uma
desilusão amorosa, Ray decide se alistar no Exército,
um gesto irrefletido que o levou a servir por longo tempo - do
qual, para conseguir a dispensa com um ano de antecedência,
Ray teve que se declarar homossexual perante um psiquiatra da
corporação - antes de voltar às aulas de
cinema na UCLA. Para sustentar seus estudos, nas noites de sexta e
sábado, Ray se transformava em Scresmin'Ray Daniels, o
vocalista dos Rick & The Ravens, um grupo nitidamente
influenciado pelo blues de Chicago e que contava com Rick e Jim
Manzarek - irmãos de Ray - no piano e na guitarra,
respectivamente. Eles animavam os fins de semana do bar Turkey
Joint West, ponto de encontro dos estudantes da UCLA, que
freqüentemente terminavam a noite em cima do palco,
bêbados, entoando velhas canções com a banda.
Uma turma na qual Morrison sempre tinham presença
garantida.
No Natal de 1964, Jim viu seus pais pela última vez, pois,
logo após, o então Steave Morrison foi designado para
ir a Londres, servir nas forças Americanas instaladas na
Europa. Durante muitos anos Jim sempre se referia a eles com se
estivessem mortos, não estabelecendo nenhuma espécie
de contato. Também a situação com sua
companheira, Mary - que viera de Clearwater para L.A. com o intuito
de se tornar dançarina -, se complicara devido as constantes
brigas e porres de Jim. A gota d’água para ele veio
com a péssima repercussão de seu filme sem
título - uma colagem desconexa de ruídos, sons e
imagens, classificado por ele próprio como "um ensaio
filmado" - obteve durante a sua primeira
apresentação, em maio de 1965. O desprezo com que seu
trabalho foi encarado tanto pela maioria de seus colegas quanto
pelos professores, (que classificaram como "o pior filme que
já tinham visto") fez com que o ressentido Jim desistisse de
terminar o curso. Então ele decidiu ir passar um tempo na
praia de Venice, perto de Santa Monica, antes de ir para Nova York
tentar a sorte, mas foi chamado às pressas por Ray com uma
proposta: substituir o músico desistente dos Rick & The
Ravens - pois o contrato estipulava que eles deviam se apresentar
com seis elementos - na abertura de um show para a dupla Sonny
& Cher. Jim terminou tocando com eles, executando uma guitarra
desplugada. Depois Jim mudou-se para Venice, a princípio
morando com Dennis Jakob, para depois ir viver num
sótão de um armazém. Nesse período de
aproximadamente três messes, no qual tomava doses
maciças de LSD, Jim dedicou-se a desenvolver o conceito de
uma banda e de um espetáculo no qual pudasse cantar suas
próprias canções, que vinha compondo com
afinco. Em uma bela tarde de agosto, Jim encontrou-se com Ray na
praia e este pediu-lhe para que cantasse uma de suas
músicas. Ele vocalizou os primeiros versos de "Monlight
Drive" - (Vamos nadar para a lua/ Vamos subir através da
maré/ Penetrar na noite que a cidade dorme para esconder")
-, que maravilharam Ray tanto como a proposta de Jim formarem uma
banda juntos. Com o nome emprestado do irrealizado com Dennis, Jim
e Ray formaram o embrião dos Doors.
O ponto de partida dessa nova banda seria os três
irmãos de Manzarek, porém eles não tinham um
baterista nem baixista fixo. Ray que por influência dos
Beatles havia aderido à filosofia de Maharish Yogi,
encontrou em seu centro de meditação John Paul
Densmore, que aceitou seu convite para integrar-se ao grupo.
Natural de Santa Monica, Califórnia, onde nasceu em primeiro
de 1944, John desde criança esteve envolvido com
música, tocando percussão sinfônica durante o
colégio depois dedicando-se ao jazz. Sua única
experiência como baterista de rock havia sido uma
rápida passagem por um obscuro grupo chamado The Psychedelic
Rangers, mas mesmo assim decidiu juntar-se a nova banda, apesar de
ter estranhado as canções de Jim. Com esse time -
acrescido de uma baixista desconhecida - e após duas semanas
de ensaio, eles entraram em um pequeno estúdio onde, ainda
como Rick & The Ravens, os irmãos Manzarek haviam
gravado um single (que não chegou a ser lançado). Em
três horas de tempo disponível conseguem gravar seis
músicas que Jim havia composto naquele verão. De
posse das matrizes, Jim, John e Ray e até mesmo sua
namorada, Dorothy Fujikawa, começaram a percorrer as
gravadoras que não demostraram o mínimo interesse
pelo trabalho. Não demorou muito para que os irmãos
de Ray e a misteriosa baixista logo debandassem. Foi nessa
época que Jim encontrou Pamela Courson - uma garota ruiva de
dezoito anos, natural da Califórnia -, com quem ele
desenvolveria um intenso relacionamento amoroso durante os anos
seguintes. E, mesmo para o grupo, as coisas pareciam melhorar com a
inclusão de Robert Alan Krieger como guitarrista definitivo
dos Doors. Robby, nascido em L.A. em 8 de janeiro de 1946, havia
tentado aprender trompete e piano antes de se dedicar a guitarra
flamenca por volta dos dezessete anos. Logo havia trocado-a por uma
elétrica, em que a partir do blues e do rock'n'roll
desenvolveu uma técnica acurada, especialmente no uso do
battleneck. Ele fazia parte da mesma classe de
meditação de Ray e John no centro Maharish,
além de já ter tocado com o último no grupo
The Psychedelic Rangers. Já como quarteto, els pensaram em
incluir um baixista na banda e testaram vários
músicos, sem um resultado satisfatório.
O problema foi resolvido quando Ray conseguiu um piano
elétrico Fender baixo, com o qual fazia as vezes do baixista
usando a mão esquerda, enquanto executava seu
órgão Vox com a mão direita.
Mother, I want to... - Os Doors haviam fechado um malfadado
contrato com a Columbia - a única a se interessar pelas
demos do grupo -, através do qual não receberam
nenhum apoio e estavam com dificuldades de arranjar lugar para
tocar, quando finalmente conseguiram arranjar uma temporada de
quatro messes numa biboca chamada London Fog, na Sunset Boulevard,
a menos de cinqüenta metros da Whiskey-a-Go-Go, um dos mais
importantes clubes de rock de L.A. Durante quatro messes, o ritimo
de trabalho da banda era tocar seis noites por semana com sete
entradas de 45 minutos por noite, que os obrigou a ampliar o
repertório com covers - das quais algumas como "Gloria", de
Van Morrison; "Back Door Man" e "Little Red Rooster", de Willie
Dixon; e "Who do You Love" - que também foram posteriormente
incorporadas de forma definitiva aos shows dos Doors. O
ínfimo cachê que recebiam de nada valia, se comparada
a experiência de palco adquirida pela banda e, de forma
singular, por Jim, que a cada apresentação ia
gradativamente abandonando sua postura reservada para se soltar em
performances mais e mais incendiárias.
Mas o melhor ainda estava por vir, quando na última noite de
sua temporada, a agenciadora de shows do Whiskey-a-Go-Go, Ronnie
Haran, veio ver os Doors no London Fog e, fascinada por Jim, decide
contratar o grupo como a banda da casa, para abrir as
apresentações de grupos como o Love, The Byrds, Them
e The Seeds, entre outros que tocassem no Whiskey. O contato com os
Doors foi difícil, pois nenhum deles tinha telefone (na
época Jim dormia na praia), mas, afinal, em meados de maio
eles estrearam na nova casa em uma conturbada temporada que duraria
aproximadamente um mês. Isto porque grande parte de seus
shows tinham de ser interrompidos pelos donos do local, fosse por
eles estarem tocando em níveis ensurdecedores, fosse porque
os músicos estivessem bêbados ou chapados demais.
Estes constrangimentos eram contornados por Ronnie e, entre
vários apoios que ela deu ao grupo, talvez o mais importante
tenha sido o fato de ter levado o presidente da gravadora Elektra,
Jack Holzman, a assistilo-os. Holzamn não gostou do que viu
pela primeira vez, mas aos poucos foi enxergando potencialidades
nas estranhas canções dos Doors e resolveu
contrata-los. Ele recomendou ao produtor Paul A. Rothschild que
fosse ve-los, e este ficou impressionado com a energia das
músicas dos Doors e também com as delirantes
improvisações a que se entregavam em temas mais
longos como "Light My Fire", "When The Music's Over" e,
especialmente, em "The End" . Mal sabia que ele poucos dias depois,
essa última música seria a causa da demissão
sumária do grupo.
Talvez a mais intrigante composição dos Doors, "The
End", tenha sido originalmente concebida para ser uma simples
"canção de adeus", apenas com o primeiro verso e o
refrão, mas aos poucos foi sendo expandida ao sabor da
guitarra etérea de Robby e das novas imagens criadas por Jim
na letra. Naquela última noite no Whiskey-a-Go-Go, Jim - que
não havia se apresentado na primeira entrada por estar
totalmente alucinado de ácido - decidiu subir na segunda e
encerrou-a com "The End". Foi a primeira vez que ele deu à
canção o seu formato final, recitando seu famigerado
trecho edipano: (O assassino acordou antes do
amanhecer/Calçou as botas/Tirou um rosto da antiga galeria/E
caminhou pelo corredor/Foi até o quarto onde sua irmã
vivia/E depois visitou o seu irmão/ E depois caminhou pelo
corredor/ E chegou até a porta/ E olhou para dentro/ Pai/
Sim, filho/ Quero ....../ Mãe quero ......"). Em seguida a
essa parte, Jim acrescentou um portentoso "...... .......",
agregado a um cataclisma sonoro detonado pelos instrumentos que
então retornavam a sua melodia original até a
conclusão do barítono cavernoso de Jim proclamando:
"This is the end"
Após a execução, não houve qualquer
reação do publico, que permaneceu estupefato em um
longo silêncio, que só foi quebrado gradativamente
pelo movimento no bar e as conversas nas mesas. Por seu lado, os
proprietários do Whiskey-a-Go-Go enxotaram a berros de
fúria os Doors de seu estabelecimento. Mas este não
foi o fim, pois logo nos primeiros dias de setembro de 1966 o grupo
estaria no estúdio Sunset Sound - em companhia do produtor
Paul e do engenheiro de som Bruce Botnick - para iniciar as
sessões de gravação de seu disco de
estréia. As portas da glória começariam a se
escancarar para Jim, Ray, Robby e John.
NÓS QUEREMOS O MUNDO E O QUEREMOS JÁ!
(parte 2)
Nove músicas próprias e covers para "Back Door Man",
do bluesman Willir Dixon, e "Alabama Song (Whiskey Bar)", parceria
do teatrólogo alemão Bertolt Brecht com Kurt Weill:
este foi o repertório escolhido pelos Doors para constar de
seu primeiro álbum. Outras, como "Moonlight Drive"(a
primeira canção do grupo, que seria regravada para o
LP posterior), chegaram a ser gravadas, mas os Doors e o produtor
Paul A. Roschild decidiram concentrar esforços nestas onze
faixas, supra-sumo do material registrado. Deste rol faziam parte:
Light my Fire (o maior sucesso comercial dos Doors, que apesar de
ter sido creditado ao grupo é de autoria quase exclusiva do
guitarrista Robby Kieger) algumas composições mais
antigas como "I Looked At You", "End Of The Night" e "Take As It
Comes", além de músicas mais elaboradas, como "Break
On Through", "Soul Kichen" e é claro, "The End".
Sem praticamente nenhuma experiência em estúdio, os
Doors encontraram na produção de Paul e no trabalho
do engenheiro de som Bruce Botnick os perfeitos complementos para
transpor sua sonoridade agressiva para o vinil. O álbum foi
gravado em quatro canais, pois, apesar de já existirem
estúdios de oito desde os anos 50, eles eram raros e
estouravam qualquer orçamento na Califórnia de 1966.
Mesmo assim, o resultado obtido foi brilhante, na
interação dos vocais de Jim com os instrumentos,
conseguida com o mínimo de recursos e que logrou contornar
sérias dificuldades, como o fato de o grupo não usar
baixo, através de overdubs dos teclados de Ray.
Porém, apesar dos Doors terem feito as bases instrumentais
de quase todas as faixas em dois ou três takes, o problema
maior residia na participação de Jim, quase sempre
chapado demais para acrescentar os vocais.
Ainda que não estivesse consumindo drogas em doses enormes,
como faria pouco depois, Jim já se mantinha quase sempre
bêbado e louco de ácido. Isso fez com que
várias das sessões de gravação tivessem
que ser interrompidas, e, dentre as músicas do grupo, a de
mais angustiante finalização tinha de ser "The End".
Jim estava tentando arduamente achar a forma ideal de enquadrar os
versos da canção, e numa madrugada chegou ao
estúdio obcecado por esse problema, pôs-se nu e
começou a atirar areia de um cinzeiro e a espuma de um
extintor de incêndio sobre os instrumentos e equipamentos,
sendo retirado de lá pelo produtor Paul. Foi ele que depois
descreveu como "um momento mágico" o registro final de "The
End", com todas as luzes apagadas, exceto pelos indicadores de V.U.
da mesa de som e uma vela na cabine de Jim. Apesar de todos os
contratempos, o álbum foi gravado em apenas duas semanas,
tendo sido necessárias mais de cinco para a mixagem. Depois
disso, os Doors seguiram para Nova York, onde fizeram algumas
apresentações muito bem recebidas, inclusive no
famoso clube Ondine's, freqüentado por Andy Warhol e o pessoal
de seu superateliê, Factory, antes de retornarem a L.A. para
o lançamento do LP.
The Doors foi editado em janeiro de 1967 e, ao lado de The Velvet
Undergound With Nico Produced By Andy Warhol, que saiu dois meses
depois, talvez sejam os dois mais impressionantes álbuns de
estréia concebidos durante os anos 60. Apesar das
concepções sonoras diferentes - enquanto o Doors se
pautavam em um instrumental com raízes no jazz e no blues, o
Vevet Underground desenvolvia uma sonoridade mais caótica, a
cargo de guitarras mais "primitivas" de Lou Red e Sterling Morrison
e da viola de John Cale -, a abordagem dos temas e o clima de suas
canções (especialmente as mais longas) uniam os dois
grupos em uma "irmandade" que se opunha frontalmente ao "paz e
amor" reinante. Eram como dois corpos alienígenas, mesmo
dentro da profusão de fraks do famigerado "Verão do
amor" de 1967, tanto na Califórnia como em Nova York. Jim
já havia ouvido com entusiasmo o som do Velvet durante a
tour do Exploding Plastic Inevitable pela costa oeste em maio do
ano anterior e pecebido a afinidade entre o trabalho deles e o que
ele iniciava com os Doors. Em meados de 1967, esta
aproximação extrapolaria as esferas musicais, com Jim
mantendo um rápido e turbulento afair amoroso com Nico, a
glacial chanteuse que acompanhava o Velvet.
Mas houve uma diferença fundamental entre os dois grupos,
decorrente da aceitação de seus álbuns: se o
"disco da banana" do Velvet foi um fracasso de vendagem cultuado
somente por um punhado de admiradores, os Doors viam o segundo
single retirado do LP - "Light My Fire", lançado em abril -
entrar para as Dez Mais Da Billboard no fim de julho e um mês
depois de alcançar o primeiro lugar. Em agosto "Light My
Fire" havia chegado à marca de um milhão de
cópias, e o LP The Doors, a um milhão de
dólares de vendas. Enquanto isso, a partir de alguns shows
no eixo L.A.- San Francisco os Doors enpreenderam uma tour nacional
de avassalador sucesso, em que começaram a ocorrer os
primeiros "pequenos incidentes" com Jim (que em um concerto em Long
Island ameaçou tirar a roupa no palco, para pânico dos
donos do local). Aliado a esse vertiginoso sucesso, a imagem da
rebeldia de Jim à frente dos Doors começava a se
projetar nacionalmente por suas aparições em
programas de TV como os de Jonathan Winters e Ed Sullivan (este com
uma audiência de dez milhões de espectadores). A
mídia atribuía-lhes uma imagem de "resposta americana
aos Beatles e aos Stones", e a partir do fim de 1967,
publicações como Newsweek, Time, life e Vogue
passariam a dedicar páginas e páginas ao culto de Jim
o "sonho americano", Este frisson logo incrementou as vendagens do
segundo álbum do grupo: Strange Days, lançado em
outubro.
Uma nova gama de inovações foi incorporada pelos
Doors em sua segunda incursão pelo estúdio: para
começar eles tiveram à sua disposição
oito canais de gravação, que possibilitavam uma maior
liberdade de criação, alem de uma
instrumentação mais requintada, na qual as linhas do
baixo, originalmente executadas pelos teclados de Ray, foram
substituídas pelas do instrumento de cordas ( no caso por
Doug Lubahn, o primeiro de uma série de baixistas usados
pelos Doors em suas gravações posteriores). Neste
contexto experimental surgiram faixas como "Strange Days" (um dos
primeiros usos do sintetizador Moog no rock), "Unhappy Gril" (com
os inusitados teclados de Ray e o chimbau invertido tocado por
John) e de forma especial os longos e envolventes climas de "When
The Music's Over" (herdeira direta de "The End") e em "Horses
Latitudes" (na qual Jim recitava um antigo poema seu sobre uma base
de "música concreta" improvisada pelas pessoas presentes no
estúdio, batendo garrafas, latas de lixo e cascas de coco
nos ladrilhos do chão, entre outros ruídos). Desta
feita, todo material foi assinado pelo grupo, e das dez
músicas do disco, duas tinham letras compostas pelo
guitarrista Robby: "Love Me To Times" e "You're Lost Little
Gril".
Menos de dois messe depois do lançamento de Strange Days,
Jim foi retirado do palco por policiais durante uma
apresentação em Newhavem, Connecticut: durante a
execução de "Back Door Man" ele começara a
descrever de forma sarcástica um episódio ocorrido
pouco antes nos bastidores, no qual um policial borrifara seu rosto
com um spray de gás lacrimogêneo. Jim foi autuado por
distúrbio da ordem e resistência à
prisão, sendo solto logo depois sob fiança. No
início de 1968, ele estava novamente envolvido de forma
pesada com LSD e bebidas, o que no entanto não o impediu de
conceber planos mais audaciosos para o grupo. Dois singles - "The
Unknown Soldier" e "Hello, I Love You", lançados em
março e julho, respectivamente - apenas prenunciavam o que
conteria o terceiro disco dos Doors. Na concepção de
Jim, seria um álbum duplo, com um dos seus lados dedicado
inteiramente à suite "The Celebration Of The Lizard", um
longo poema escrito por ele e musicado pelo grupo, na qual
reafirmava sua fascinação por répteis (como em
alguns versos de "The End") e que lhe valeu a alcunha de Rei
Lagarto. Porém, tanto o resto do grupo como o produtor e
engenheiro de som (novamente Paul e Bruce) mostraram-se
insatisfeitos com os resultados obtidos não só com
"The Celebration" como também com outras recentes
composições dos Doors, depois de exaustivas
sessões de estúdio. A solução foi
recorrer a antigas canções como ("Hello, I Love You"
e "Summer's Almost Gone") e criar novos arranjos (como os vocais de
capela de "My Wild Love", improvisados no próprio
estúdio) para tomar o lugar das faixas rejeitadas. Uma delas
, "Waiting For The Sun" (posteriormente regravada no LP Morrison
Hotel), é que acabaria dando o nome ao álbum, a
princípio intitulado American Nights e depois de The
Celebration Of The Lizard, idéia deixada de lado pelo fato
de que só um pequeno excerco desta suíte ("Not To
Touch The Earth") foi incluído no disco.
Pouco antes do lançamento de Waiting For The Sun, os Doors
começariam com um show de gala na noite de 5 de julho de
1968 no Hollywood Bowl, a primeira de uma série de
excursões ocorridas, porém tumultuadas. Depois de
tocarem no Texas e no HavaÍ, eles se apresentaram - junto
com o The Who - no gigantesco Singer Bowl, em Nova York, num
trágico show durante o qual centenas de pessoas da
platéia e policiais ficaram feridos durante um grande
confronto. Os problemas continuaram na tour Européia de
três semanas feita pelo grupo na seqüência: em
contraponto ao espetacular sucesso de sua passagem por Londres, em
um dos shows em Frankfurt os Doors tocaram como um trio, com Ray
assumindo os vocais, pois Jim teve que ser internado às
pressas em um hospital, por ter passado um dia inteiro se
embebedando e comendo pedaços de haxixe. A sua
relação com as drogas não tinha o
carácter introspectivo daquele de sua companheira - Pamela
Cuerson, que na época começara a se utilizar de
heroina -, mas era uma porta de expansão para sua
personalidade intempestiva, que freqüentemente se atirava nos
mais incríveis excessos. Mesmo na ribalta, tais excessos as
vezes custavam caro a Jim, como em um show no dia primeiro de
novembro, em L.A., onde, depois de dirigir
provocações à platéia, ele quase foi
alvejado por fogos de artifício.
As atitudes incendiárias de Jim no palco fariam dos
primeiros messes de 1969 um período capital na
história dos Doors. Interessado de longa data no trabalho
experimental desenvolvido pelo dramaturgo francês Antonin
Artaud, Jim teve a oportunidade de participar de um
espetáculo de descendentes diretos de Artaud: o Living
Theatre de Julian Beck e Judith Molina. A idéia de Jim foi
de aplicar os mesmos métodos chocantes e provocativos para
aumentar ainda mais o impacto das apresentações dos
Doors. A cristalização desse procedimento deu-se
durante um fatídico show em Miami, Florida. Jim, que a
tempos vinha cultivando uma cerrada barba, assumira um ar
mefistofélico muito distante de sua imagem de "o sonho
americano". Naquela noite depois de insultar insistentemente a
platéia com coisa do tipo "vocês são um bando
de idiotas fudidos", ele abaixou as calças e simulou estar
se masturbando, alem de ter insinuado um fellatio com o guitarrista
Robby, entre outras amenidades. No dia seguinte, Jim, Ray, John e
Robby, acompanhados de suas respectivas namoradas - Pamela,
Dorothy, Julia e Lynn -, partiram para o Caribe em férias,
bem a tempo de Jim escapar de uma ordem de expedida contra ele por
"comportamento indecente, exibicionismo, linguagem obscena e
bebedeira".
O "caso Miami" rendeu um sem-número de
especulações sensecionalistas a respeito de Jim. Os
Doors começaram a ter uma série de
apresentações canceladas, e, devido à sua
repercusão, a questão acabou chegando até a
alçada do FBI. Em 4 de abril, Jim se entregou à
justiça aconpanhado de seu advogado, sendo liberado logo
depois sob fiança de cinco mil dólares. Este seria o
primeiro passo de um penoso e interminável processo que
terminaria dois anos depois, até ser encerrado pela morte de
Jim. Mas os problemas com a lei momentaneamente ficaram para
trás, tendo em vista a estréia de um filme (Fiest of
Frends) e a conclusão de outro (HWY) - realizado pelos Doors
junto a Paul Ferrara, Frank Lisciandro e Babe Hill, antigos colegas
de Jim e Ray no departamento de Cinema na UCLA -, e também o
lançamento de The Doors Are Open, documentário
centrado em uma antológica performance do grupo em
Roundhouse, em Londres. Foi também com
satisfação, que nesta época, Jim viu seu
segundo livro de poesias - The New Creatures, dedicado à
Pamela - ser publicado em edição limitada assim como
o anterior (The Lords/Notes On Vision). Mas júbilo maior
ficou por conta dos Doors, quando em junho praticamente haviam
terminado as complicadas sessões de gravação
de seu quarto LP, que já se estendiam por mais de seis
messes.
Com o lançamento de The Soft Parade, ficaram comprovadas
mudanças sensíveis na concepção do
grupo. A começar pelo crédito das músicas que,
anteriormente sendo coletivos, foram pela primeira vez imputados
individualmente e divididos de maneira salomônica entre Jim e
Robby. No plano musical ocorreu uma nítida
sofisticação nos arranjos, com o uso ostensivo de
cordas e metais, que chegava às raias de descaracterizar a
crueza do som do grupo. É claro que ainda destacavam o
brilho de algumas canções de Jim ("Shaman's Blues" e
"Wild Child") e Robby ("Touch Me" e "Runnin' Blue", esta dedicada a
Otis Redding), mas, no cômputo geral, o resultado ficou
aquém das expectativas, com possível
exceção para a longa faixa- título escrita por
Jim, a que mais se aproximava em faixas de criatividade, da
produção anterior do grupo. Acolhida de
crítica e público foi um tanto recitente, mas mesmo
assim - com a polêmica sobre "caso Miami" parcialmente
errefecida - os Doors conseguiram confirmar vários shows e
saíram em uma tour, cujo o roteiro compreendia desde
Toronto, no Canadá, até a Cidade do México,
atravessando os EUA. Nos palcos, um Jim de rosto barbeado e um
pouco mais contido, o que não impedira dele seu
comportamento irascível lhe causasse uma série de
problemas com a lei, pelos mesmos motivos de sempre.
Os planos da gravadora Elektra eram que alguns destes shows fossem
gravados para que um disco ao vivo pudesse ser lançado antes
do fim do ano, mas o projeto foi vedado pelo grupo, que decidiu se
dedicar a preparação do material do próximo
álbum de estúdio. Desta forma, no começo de
Janeiro de 1970, foi lançado Morrison Hotel, um LP que
resgatava uma vitalidade não registrada pelos Doors em
estúdio desde Strange Days. Pelos dois lados do disco - o
primeiro batizado de "Hard Rock Café" e o segundo como
"Morrison Hotel" - transbordava uma energia exuberante, não
só nos números mais pesados, como "Roundhouse Blues"
(com a gaita de Giovanni Pugliese, também conhecido por John
Sebastian) e "You Make Me Real", mas também em pungentes
baladas como "Blue Sunday" e "Indian Summer". Isso sem contar com a
verve poética e a voz de Jim, que voltaram à sua
melhor forma. O disco foi bem recebido, e logo os Doors voltaram a
excurcionar, enquanto Jim teve seus dois primeiros livros de poesia
republicados em grande escala pela Simon & Shuster, de Nova
York, ao mesmo tempo em que triava uma editagem limitada um
terceiro: An American Prayer. Por outro lado, a maldita sina dos
concertos dos Doors cancelados por causa da má
reputação de Jim continuava a persistir, agravada
pelos impasse gerado pelos constantes adiamentos do "caso Miami" e
outros "delitos menores".
Sob essas circunstâncias, Jim decidiu passar algum tempo em
París, terra de Bauldelaire, Rimbaud e outros mentores de
seu estilo poético, para manter-se afastado um pouco do
cenário do rock e fazer planos para o futuro. Antes fechou
um contrato verbal com a MGM para atuar e participar do roteiro e
da produção de dois filmes (The Adept e Cork),
projetos nunca concretizados. Foi, então, que aconteceu um
dos acontecimentos mais insólitos da vida
imprevisível de Jim: de passagem por Nova York para levar
alguns tapes ao vivo dos Doors para serem remixados, reencontrou
Patrícia Kennely, editora do magazine Jazz & Pop, que
conhecera durante uma entrevista há pouco mais de um ano. De
súbito, decidiu se casar com ela antes de embarcar para a
Europa, o que se deu em uma excêntrica cerimônia no
apartamento gótico-vitoriano de Patrícia, seguido dos
rituais de feitiçaria de uma ceita que ela seguia.
Viajando de París para a Espanha e depois para o Marrocos,
Jim retornou a L.A. em julho, pouco antes do lançamento do
álbum duplo Absolutely Live. Este trazia como novidade as
faixas ao vivo de músicas até então nunca
registradas em vinil, como "Build Me A Woman", "Universal Mind" e
"Love Hides", junto a covers inéditos de Bo Diddley ("Who Do
You love") e Willie Dixon ("Close To You"), além da
única versão integrada editada oficialmente da
suíte "The Celebration Of The Lizard". Durante dois messes
seguintes, Jim - que deixara crescer a barba novamente - foi
convocado para sucessivas audiências no tribunal de Miami, ao
mesmo tempo em que ficou sabendo que Patricia estava
grávida. Para acentuar ainda mais a sua depressão,
ele viu a segunda tour que os Doors fariam na Europa ficar reduzida
a uma única e desastrosa apresentação na Ilha
de Wight, em 29 de agosto. Angustiado por essa
situação, Jim se afundava novamente no álcool
e nas drogas pesadas, como a cocaína - que ele
começara a consumir com avidez há pouco mais de um
ano -, a heroina, na qual iniciara-se por influência de
Pamela, antes que uma briga entre ambos a fizesse mudar para
Paris.
As coisas só começariam a melhorar no fim do ano,
quando Patricia atendeu aos insistentes pedidos de Jim e fez um
aborto. Ao mesmo tempo, a Elektra lançava a
compilação 13 e dava um sinal verde para que os Doors
iniciassem as gravações de um novo álbum.
Além disso na data de seu vigésimo sétimo
aniversário (08/12/70), Jim conseguiu junto à
gravadora a cessão de algumas horas de estúdio, as
quais dedicou a gravação de trechos de seu livro An
American Prayer (um material que seria lançado postumamente
em 1978, em um LP hormônimo, no qual os textos recitados por
Jim foram agregados a um fundo musical executados pelos três
membros remanescentes do grupo). No início de 1971, as coisa
estavam ainda melhores para Jim, com Pamela tendo voltado de Paris
para se reconciliar com ele e os Doors embalados com força
total na elaboração de L.A. Woman. A idéia era
fazer um ábum profundamente enraizado no blues gravando os
instrumentos e os vocais ao vivo no estúdio - que no caso
era o próprio local de ensaios deles - e com o mínimo
de overdubs. Para completar o time, eles chamaram Jerry Scheff
(ex-baixista da banda de Elvis) e Marc Brenno (que participou de
algumas faixas como guitarrista base). Desta forma, foram gravados
vários números ligados a tradição do
blues ("Been Down So Long", "Cars His By My Window" e até
"Crawling King Snake", de John Lee Hooker) e canções
mais próximas do estilo musical dos Doors, como "The
Changeling", "L.A. Woman", " L'America", que fora excluída
da trilha de Zabriskie Poit, de Antonioni, além do
tempestuoso clíma de "Riders On The Storm".
Esta última música havia sido a gota d'agua na
relação - que já estremecia desde as
gravações de Morrison Hotel - dos Doors com o
produtor Paul A. Rothschild, que depois de ouvi-la classificou como
"música de coquetel". Na verdade, Paul não tinha em
absoluto compartilhado do entusiasmo do grupo em
relação a seus novos trabalhos e se retirou
sumariamente da produção, cabendo ao engenheiro da
som Bruce Botnick, associado aos próprios Doors, a tarefa de
terminar o LP. Nem mesmo Jim esperou a conclusão das
mixagens e, no começo de março, viajou para Paris
para encontrar Pamela, que pouco antes tinha seguido para
lá. Um mês depois, o álbum foi lançado
e, mesmo alcançando níveis iniciais razoáveis
de vendagem, não conseguira decifrar a incógnita em
que se transformara o futuro dos Doors. Afinal, este era o
último disco previsto pelo contrato da Elektra, e, de seu
exílio voluntário em Paris, Jim tinha várias
dúvidas quanto continuar sua trajetória de rock star
ou mergulhar de vez na poesia e literatura.
Este dilema manteve-se sem solução, com a morte
repetina de Jim em 3 de julho. Foi o ponto final de uma
existência repleta de todos os os tipos de excesso, dos mais
vitais aos mais letais. Sua companheira, Pamela, não
demorara a seguir o mesmo caminho, morrendo de overdose de
cocaína menos de três anos depois. Quanto aos outros
membros do grupo, a princípio incentivados pelo selo
Elektra, tentaram levar adiante a lenda dos Doors tocando como
trio, com Ray e Robby revezando-se nos vocais. Os esforços
eram em vão, pois a porta principal já estava
fechada. Depois do LP Other Voices (lançado em novembro de
1971), onde ainda algums lampejos de inspiração
salvaram-se no meio às fracas composições, o
trio ainda cometeu em julho de 1972 o álbum Full Circle, um
hediondo epitáfio para a carreira tão espetacular
como a dos Doors. Era triste mas verdadeiro, o círculo
estava completo. Ascensão, glória e
declínio.
Nunca mais, fossem como músicos ou produtores, as três
"portas" sobreviventes conseguiram repetir a intensidade da chama
criativa que envolvia o som do grupo na companhia do Rei Lagarto.
Talvez seja por isso que seu trabalho, mesmo duas décadas
depois, ainda continue resplandecendo. Afinal, Jim sabia que a
música seria a sua única amiga, até o
fim.








